Veganismo, alergias e o nojo

Muito comum ao vegano após a mudança estilo de vida é perceber “nojo”, “repulsa”, enjoos, vômitos e sentimentos negativos em relação à alimentos com animais, sabor e cheiro. Estes sentimentos se estendem a praticamente todo vegano. Como recentemente ouvi comentários acerca de “alergias que médico nenhum explica”, julgo necessárias algumas palavras sobre os “sintomas físicos” causados por “pensamentos”, ou seja, a psicossomática.

Como este assunto surgiu em diversos momentos desde quem me tornei vegano, dividi um tópico em duas partes. A Parte II é um texto antigo que eu já havia postado e a Parte I é um novo texto que escrevi recentemente. A meu ver a Parte I é bem completa e deve ser suficiente, porém caso fique alguma questão a mais, basta ler as duas partes.

Parte I

A primeira coisa para entender sintomas físicos é perceber que nosso corpo rejeita situações que racionalmente recusamos. Basta lembrar como é difícil entrar naquela festa daquela pessoa que não gostamos, estar diante de uma pessoa corrupta, criminosa pode gerar sentimentos físicos negativos. Em muitos casos estas sensações são suportáveis e passamos por elas sem nem perceber. Porém em outros casos elas tomam conta de nós.

O nosso corpo é inteligente, ele aprende conosco. Se você diz para ele que algo está errado ele vai te avisar com algum sintoma que você está se aproximando do perigo! Quanto mais perto do leão, mais medo sentimos.

Podemos escolher conviver com este sintoma ou procurar alguma solução.

Para encontrar uma saída psicológica, precisamos entender um pouco de psicologia que antecede à alergia.

Nós associamos a apenas um fato muitos pensamentos e precisamos saber qual pensamento exatamente é o que nos causa o sintoma. Podemos ter medo de um cachorro, porém, inventando um exemplo, às vezes o que realmente temos medo não é da mordida, nem do cachorro, mas medo de alguma outra coisa ou pensamento associado ao cachorro. Às vezes esse medo pode ser bastante simbólico num nível bem abstrato. A pessoa não gosta que mandem nela, e ela viveu em uma casa que a família obrigava ela cuidar do cachorro. A experiência negativa de ser “obrigado” a fazer algo leva a pessoa a fugir de situações semelhantes. Esta pessoa pode sentir medo que o dono do cãozinho mande ela ficar segurando a coleira e isso lembra da família que a obrigava a cuidar ameaçando com violência caso ela não o fizesse. Então esta pessoa pode dizer para si mesma, sem se dar conta dessa trama toda, que “não gosto de cachorro, só gosto de cachorros de rua”. Claro, o cachorro de rua não tem um dono que a mande cuidar dele, então ela não sente nada a esse respeito. O mesmo pode estar acontecendo em relação à carne. O cheiro, o gosto não são o problema em si, mas as coisas que o nosso pensamento está relacionando com aquilo.

Trazer à consciência estas “histórias” inconscientes é um dos caminhos. Quando compreendemos estes trajetos do pensamento nos sentimos bem! Quando conseguimos encontrar uma saída para eles melhor ainda. Vamos supor no caso acima, a pessoa poderia aprender a dizer “não” e teria seu problema resolvido. Outras saídas são possíveis, porém seja qual for ela precisa entender que “ela não é obrigada a fazer”, que este sentimento de obrigação vem de um momento em família e que não estamos agora em família e este sentimento irá trazer paz.

Voltando ao veganismo: Neste sentido muitos veganos acabam trazendo pensamentos proibitivos sobre gosto, cheiro, etc. Quando vejo o Gary Yourofsky dizendo naquela palestra para as pessoas que adoram copiar frases do autor e ele então diz “EU AMO GOSTO DE CARNE”, neste momento ele atingiu o nirvana vegano, que é não comer carne e não ter medo dela.

Assista ele dizendo isso em 00:44:15 (É só clicar com o mouse no tempo, não precisa ver o vídeo todo.)

Dizer diante dos amigos que é vegetariano e acha carne uma delícia não é algo fácil. Porque isso vai fazer as pessoas pensarem que você está sofrendo. Eles não querem sofrer então eles nunca se tornarão veganos se virem um vegano sofrendo por não comer. Para resolver isso a pessoa então diz para si mesma que vai sempre ter uma atitude positiva para os vegetais e uma postura negativa para o alimento animal para que atraia mais pessoas ao veganismo. Neste momento o corpo entendeu, gosto, cheiro e qualquer outra coisa deve ser rejeitado. Nesta hora podem surgir sintomas simplesmente porque seu corpo age de maneira prática, ele resolve de uma vez por todas o conflito gerando náuseas e alergias.

A saída Gary Yourofskyniana seria assumir diante dos outros que não é o gosto e o cheiro que te fez largar a carne, mas a ética. O seu corpo nessa hora fica livre para caminhar diante de uma mesa de churrasco e sentir qualquer coisa que seja e permanecer neutros.

Outra questão que não causa, mas aumenta o sentimento de nojo e mal estar é o perfeccionismo. O perfeccionismo por exigir uma resposta 100% correta faz com que o pensamento que manda estar longe de carne se torne um dever absoluto. Perfeição. Se há um pequeno odor de carne, às vezes a própria leitura da palavra carne deve ser obrigatoriamente suprimida. Neste caso, para uma possível solução, podemos adquirir um pensamento mais flexível. Dizemos a nós mesmos que não é um cheirinho de carne que vai abalar minha compreensão ética sobre o que devo ou não fazer. Eu posso sentir o cheiro, eu posso sentir o gosto de carne em um alimento de soja que não é carne sem sofrer.

Algumas vezes ainda estamos inseguros em relação à dieta e enquanto nos fortalecemos, procuramos evitar o contato. É natural esta insegurança. Há muitas perguntas vinda dos outros que podem abalar nossa confiança e neste momento podemos fugir do conflito nos obrigando a permanecer longe de tudo aquilo que possa causar uma recaída. O medo pode perturbar nosso pensamento, porém precisamos enfrentar esse medo e ter a certeza de que ainda que não tenhamos resposta para todas as perguntas podemos continuar veganos e deixar que o tempo nos esclareça as nossas dúvidas. Desta maneira deixamos de ter atitudes de distanciamento do cheiro, das pessoas.

Por muitas vezes também como um sintoma real orgânico de rejeição à carne vai no mesmo sentido da ideia do veganismo, quando encontramos uma razão baseada em fatos de que não devemos comer carne, este sinal físico faz com que nosso desejo seja mantê-lo como prova de que carne faz mal. Nos apegamos ao sintoma e fingimos estar tratando dele quando na verdade boicotamos o tratamento inconscientemente de maneira a nos obrigar a permanecer na dieta e a convencer aos outros de que há uma força maior nos levando àquilo. Porém precisamos lembrar nessa hora que estes sintomas surgem após a mudança de hábitos. São pessoas que comeram carne normalmente desde sempre e só depois desenvolveram tais reações. Então precisamos desconfiar de nós mesmos e nos perguntar se não estamos usando algum sintoma como defesa.

Além disto tudo que citei cada um de nós possui uma história única que pode trazer algum motivo para proibirmos a nós mesmos de estar próximos à carne, ao cheiro. Podemos e devemos buscar entender estas razões para atingirmos o nirvana vegano que é a ausência de sintomas físicos negativos e compreensão máxima das razões que nos levam a deixar de nos alimentar de animais. Quando estamos seguros das reais razões que nos torna veganos já não há motivos para medos, inseguranças e reações corporais.

Contudo se mesmo assim ainda houver algum sintoma nos resta aprender a conviver em paz com ele. Neste momento temos consciência que a alergia, o mal estar vão surgir e que não precisamos nos assustar com isso. É apenas uma sensação. Nos casos de alergia podemos procurar um médico que traga o esclarecimento não psicológico e por aí vamos.

Parte II

Já há estudos na psicologia que relacionam fortes relações entre o que “pensamos” sobre a comida e o paladar. Algumas pessoas chegam a vomitar certos alimentos após ingerido simplesmente por descobrirem que tinham comido algo que “não gostavam” ou algo “proibido”. Quando me tornei vegano percebi que olhar a carne estava me trazendo mau estar, porém por ser psicólogo, já sabia que a carne em si era neutra e que eu estava começando a somatizar. De fato a partir de então até hoje a carne continua sendo uma imagem que remete à sofrimento, dor e coisas que prefiro evitar. A única coisa que mudou foi que podemos tomar consciência disso e dessa forma não nos afetarmos por estarmos fisicamente próximos destas coisas. Em outras palavras, aprender a não gostar sem que para isso “passemos mal”.

A ciência já provou com estudos em gêmeos idênticos que certas alergias são genes que são ativados ou desativados de acordo com a nossa história de vida e que um gêmeo pode desenvolver determinada alergia e o outro não.

O primeiro ponto a se perceber é que certas imagens e cheiros de animais mortos passam a causar mal estar após a mudança de dieta.

Neste momento devemos suspeitar se não há algo de psicossomático surgindo. Muitas vezes a pessoa sente que é algo positivo sentir nojo e mal estar diante de “animais mortos”, porque é seu corpo reagindo naturalmente à algo “errado”. A pessoa sente que sua convicção pelo veganismo é realmente verdadeira porque agora ela tem um sintoma real que o corpo foi preparado para ter repulsa à animais mortos. Porém ela não percebe que o corpo não está reagindo à carne, ao cheiro. Ele está reagindo a uma compreensão simbólica negativa atribuída àquela situação. O corpo encontra uma forma de fazer a pessoa evitar o que nós dissemos ser “errado” e causa um sintoma em si mesmo.

Para entender isso, imagine que uma pessoa que você não gosta chega na sua casa. Com o tempo você aprende o som do carro dela, o barulho da chave, de forma que com o passar do tempo, basta ouvir o som do carro e da chave que isso nos trás mal estar. A psicossomática, quando acontece, segue o mesmo princípio: ver, cheirar, às vezes até o simples pensar nos trás sensações negativas. O corpo vai aprendendo e automatizando respostas que levem à evitação. É uma forma evitar situações negativas, porém às vezes a saída do corpo é causar sintomas em si mesmo e pode sim se utilizar de sons, imagens e pensamentos para isso.

Reconhecer e superar estes símbolos é importante para o aprendizado vegano. O nojo não é só de comida, aprendemos o nos sentir mal diante de certas pessoas, certos grupos de pessoas e são consequências de nossos pensamentos. A pessoa em si não tem algo, mas nossa interpretação sobre o que ela representa pode nos causar alguns sintomas.

Precisamos nos auto-observar para confirmar se estamos diante de um fato psicossomático. Não há uma regra clara que defina isso, podemos apenas obter algum dado a este respeito respondendo para nós mesmos se sentimos sua origem nos pensamentos e se somos capazes de repensar nossos pensamentos em relação ao que sentimos.

O mal psicossomático trás sempre algum pensamento inconsciente que deixamos de refletir, uma rigidez em certas posturas e o corpo assume a proteção natural contra aquilo que consideramos prejudicial.

No caso não é o animal morto em si que contém o mal estar. Em outras palavras, o vegano atinge sua saúde psicológica quando consegue separar emoções que estão misturadas com “imagens” e cheiros de carne e fazer sua manifestação livre de nojo e símbolos psicológicos que não estão na carne do açougue em si, mas sim em nossas mentes.

Antes de mais nada é preciso buscar a confirmação de que se trata realmente de um sintoma causado por questões psicológicas.

O tratamento psicossomático pode ser feito com o auxílio de um profissional da psicologia ou através da auto-análise. O que vai definir qual método usar é seu julgamento pessoal: se você considera capaz de se auto-analisar ou se prefere um profissional. A permanência do sintoma pode deflagrar que a análise precisa de auxílio profissional. O tratamento psicológico certamente não é como um remédio que faz efeito de uma hora para a outra, ele depende em grande parte do empenho da pessoa. Isso não exclui a busca por outros profissionais de outras áreas, o tratamento multidisciplinar já se comprovou bastante eficaz na maioria dos casos.

O caminho do vegano certamente é aprender a retirar a carga emocional do som, da imagem, do cheiro, do pensamento, compreender os pensamentos que estão sendo associados e reorganizar conscientemente o que de fato incomoda tanto a pessoa a ponto de causar sintomas. Lembre-se, por mais que não gostemos de alguma coisa, não somos obrigados a nos incomodar com ela. O sucesso psicológico é estar ao lado de nossos medos e compreendê-los, reagindo de forma consciente e positiva.

Sobre o fenômeno em si há dois pontos importantes: as razões que nos levam a rejeitar algo e o objeto que escolhemos para representar esta rejeição. É preciso examinar a rejeição em si, de forma a confrontar psicologicamente o pensamento ou fisicamente o objeto de forma a buscar nossos pensamentos inconscientes contidos nele. Desta maneira, é preciso evitar que a mudança de objeto no faça pensar que a análise terminou, uma vez que a pessoa para de sentir nojo da carne e passa a sentir da marca do produto. Outra questão é quando encaramos o problema e medimos força com ele até suportarmos a agressão. Neste caso a saída é estressante porque não houve a eliminação da causa e sim o confronto de forças. Por fim, buscar as raízes é a saída mais recomendada.

Cito agora um trecho pertinente sobre ‘alergia’  do livro “A Doença como Símbolo” de Rudiger Dahlke que é um médico pesquisador de psicossomática conhecido pelo livro “A Doença como Caminho”. Se você se identificar com este texto ou parte dele, recomendo uma boa reflexão a respeito. Toda a nossa vida construiu o que somos hoje, então não se prive de caminhar por essa longa jornada que nos trouxe até aqui.

Alergia

Plano Corporal: pele(delimitação, contato, carinho), pulmões (contato, comunicação, liberdade), sistema digestivo (bhoga: comer e digerir o mundo)

Plano Sintomático: conflito entre a mais alta agressão e a mais alta sensibilidade; guerra no plano corporal; reação excessiva, armar-se fortemente, defesa, marcação exagerada sobre a imagem que se tem do inimigo: investir até mesmo contra amigos (por exemplo, meios de vida) em vez de se ater aos inimigos (como as bactérias); forte agressividade inconsciente, agressão não reconhecida nem vivenciada; luta contra o que provoca medo, medo da vivacidade/vitalidade: medo de rupturas vitais (até mesmo a da primavera, com seus germes e botões pontudos, com suas árvores em erupção e toda sua vicejante verdura); jogo de forças: excede-se o evitar dos alergênicos, tiranizando-se o meio ambiente e vivenciando-se agressões; a partir daí, os resultantes sentimentos de culpa conduzem a uma subsequente troca de agressões.

Alergênicos: símbolo do vital e do sujo, ressaltando particularmente o sexo como algo inferior e impuro; assim, não é necessário que a pessoa tenha consciência de referência simbólica, basta que ela seja conhecida pelo inconsciente coletivo (por exemplo, a criança não sabe que a penicilina é produzida com o fungo Penicillium): (…)

4. Alimentos e estimulantes (meio de vida, vitalidade) em geral: o sujo, poluído, perigoso na alimentação; (…)

5. Medicamentos: como agentes causadores tem atuado ao modo de boatos: em número crescente e perigosos, poluidores e nocivos (e desde então tem sido tão frequentes quantos os alergênicos); sobretudo a penicilina (o fungo penicilo Aspergillus penicillium): sujeira.

Tratamento: exercícios de agressão (meditação dinâmica, exercícios de confrontação, trabalho de corpo – energia em vez de alergia!) e instrução da sensibilidade (aprender a diferenciar amigos de inimigos); para o corpo, novamente desmantelar a prática da agressão e o agir com agressividade; arriscar a vida, aceitar desafios conscientemente; agir com ofensividade; estar pronto para reagir; aprender a desfrutar o erotismo; insensibilização do plano psíquico mediante discussões conscientes entre os domínios evitados e depreciados; deixar e assimilar na consciência os domínios evitados, por exemplo, como no caso da alergia ao pó doméstico; reconciliação com as piadas sujas, lavar com consciência uma roupa imunda, para desinfetá-la; psicoterapia no sentido do trabalho das sombras.

Remissão: “amar os inimigos”; reconhecer que o inimigo também tem uma individualidade; admitir de novo e conscientemente os símbolos classificados como inimigos, aceitando-os em sua inteira significação; reconhecer que na verdade eles são amigos; viver corajosamente, tomar a vida de assalto, a ferro e fogo; confrontar-se com a vida; aceitar desafios de maneira grata e valente e deixar-se promover por eles.” A Doença como Símbolo, Rudiger Dahlke

Roberto de Andrade
Psicólogo CRP 12/07441

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One response to this post.

  1. Muito bom o texto Beto.
    Abs

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