O Bem Estar Animal

Porque não defender o “bem estar” animal nas fazendas de criação?

Há muitos fatores e pretendo explicar alguns pontos.

A primeira coisa a se considerar é como podemos avaliar o bem estar animal? Para isso a WSPA (Sociedade Mundial de Proteção Animal) se utiliza de um critério: As “Cinco Liberdades”(¹) animais do bem estar animal. Para se compreender o bem estar animal, ele deve estar:

1) Livre de fome de sede.
2) Livre de desconforto.
3) Livre de dor, ferimentos e doenças.
4) Livre de medo e angústia.
5) Livre para expressar seu comportamento natural.

É importante notar que a WSPA considera plausível a idéia de matar “animais felizes” e que por conta deste ponto de vista tem sido criticada por uma série de defensores dos direitos dos animais. (Leia sobre “Especismo“)

A partir disso então tentamos criar uma forma de transformar uma criação de animais em algo “feliz” para o animal, compreendendo que ele “por ter uma vida feliz irá morrer feliz”.

1) Dar água e comida parece simples. Em geral o animal para criação precisa estar gordo para ser comido, então ele será bem alimentado. Mas o que significa estar bem alimentado? Comer o que ele comeria naturalmente? Claro que não. Como ele será vendido é preciso ter um peso considerado ideal pela empresa. E para isso se for necessário dar hormônios de crescimento, se for necessário dar uma ração que não tenha os elementos que ele comeria na natureza, isso será utilizado. Nada disso é pensado no “Bem-Estar do Animal”, mas no bem estar do consumidor.

2) O bem-estar do animal dá prejuízo. Vou dar um exemplo de um caso que se estende à muitos outros casos. A mortalidade de galinhas, por exemplo. Se você deixar uma galinha chocar seu próprio ovo, respeitando a “expressão do seu comportamento natural” o nível de mortalidade dos pintinhos é maior(²). Eles morrem menos se nascerem numa chocadeira artificial. Desta forma o lucro é em dobro: menos gastos com pintinhos mortos, menos gastos com espaço para o ninho da galinha. O pintinho nunca verá sua mãe e desta maneira não expressará também seu comportamento natural. Adaptar a criação ao bem estar animal sempre vai demandar espaço, mais gastos, mais dinheiro e em consequência menos lucro. Mais do que isso, o bem-estar animal dá prejuízo. De forma que se torna contraditório pensar nas vias reais de adequar a produção ao bem-estar.

3) Considerar que dar uma vida feliz ao animal fará que a morte dele seja feliz é outro equívoco. A grande maioria dos animais definitivamente protege a própria vida. E ele vai fugir da morte até o último segundo. Se os animais na hora do abate estão felizes é porque foram enganados e não estão conscientes que serão mortos. Os seres humanos perceberam que o animal percebe que algo de errado irá acontecer e criaram formas que o animal não percebe que vai ser morto. Simplesmente ele morre achando que estava num corredor fechado sem nem saber para onde ia. Este tipo de Abate “Humanitário”(³) pode ser menos cruel para o animal porque ele morre de surpresa sem nem ter tempo para pensar no que está acontecendo. Mas também mostra nosso cinismo e como somos capazes de manipular até o pensamento de um animal para escapar do nosso desconforto de causar morte à um ser vivo. Ou melhor, segundo as pesquisas, animais abatidos em situação de estresse causam mal à carne que consumimos, deflagrando mais uma vez que o foco do bem estar é o ser-humano e não o animal abatido.

4) Temos que ter consciência que o que é decidido para os animais tem o foco neles como “produtos”. Vamos supor um exemplo sem animais. Se entre dois tipos de areia um deles é melhor para construir casas, então se opta pelo melhor. Porém esse paralelo é verdadeiro no caso dos animais. Como eles são vistos como objetos, se queremos um animal gordo, nós decidimos se para isso se ele vai ficar solto, se vai comer, se vai dormir, se vai acasalar. Isso significa que “deixar o bezerro com a vaca faz ela parar de dar leite mais cedo que na ausência dele”. Logo, é procedimento retirar o bezerro de perto da mãe para que ela dê mais leite. Bezerros tem a carne mais macia, principalmente se eles caminharem pouco para não criar músculos e forem abatidos ainda jovens, o famoso “baby beef” ou carne de vitela. Vida do animal e produção estarão sempre em conflito.

5) Seres humanos presos nos presídios não são diferentes de animais em jaulas. Eles ficam dependurados nas grades das celas, se acostumam que não podem sair e com o tempo desistem de tentar fugir e ficam lá vivendo. Continuam comendo, continuam levando suas vidas esperando que alguma coisa aconteça e a vida volte a ser boa. Animais não humanos igualmente continuam suas vidas mesmo se trancafiados em minúsculos cubículos. Como não falam, cabe a nós, no nosso pensamento decidir o que eles estão felizes presumindo que se ele não está chorando, está feliz e sem nenhuma dor ou sintoma ou sofrimento interno. É um mero achismo.

6) Animais não humanos são vidas distantes da nossa. Nós podemos tentar descobrir o que eles pensam. Nunca saberemos ao certo o que eles pensam porque usamos a nossa experiência de vida para explicar o que eles sentem. Não conseguimos entender como um cachorro após levar muitas bofetadas ainda vem atrás de nós todo feliz querendo brincar. Anos de tese de psicologia para conseguir “inferir” alguma explicação sobre isso e ainda assim será sempre uma explicação sem as palavras do cachorro, isso mesmo, animais não explicam para nós o que sentem, então temos que nos resignar em utilizar com cautela extrema nossas afirmações sobre eles.

7) Não podemos nos esquecer que o bem estar animal não é só em relação àqueles que comemos. Existem os animais de circo, de rodeio, de touradas. Estes são ditos “bem tratados”. Sim, bem tratados porque um touro magro e fraco não “diverte” as pessoas na hora da tourada. O foco nunca está no animal, mas sim na “utilidade humana”. Ela decide qual raça vai cruzar com qual fêmea para dar um “touro bravo”. O macho sequer precisa conhecer sua parceira, bastando apenas coletar seu esperma e inseminando a fêmea.

8) Animais não são produtos. Nós seres humanos sabemos que não devemos tratar outros seres humanos como produtos. Nós sabemos que não queremos ser “usados”. Não há toda essa diferença entre a nossa vida e a vida de animais que como nós usam os ouvidos para ouvir, as patas para andar, os focinhos para cheirar, o coração para circular o sangue, e SIM, o cérebro para pensar! Evitamos que façam isso conosco, porém colocamos os animais numa categoria de “objeto” que nos autoriza a utilizá-los. A ciência já provou que a vida sem exploração animal é  viável e também saudável.

9) Se por um lado consumimos o ar da atmosfera para respirar sem nenhum “peso na consciência”, toda alimentação baseada em seres vivos é sempre um prejuízo para aquele que é morto. Então nunca é neutro matar um ser vivo. Não existe o “vou comer carne de lagarto” só para ver se o gosto é bom. É fácil concordar com isso quando você não é o lagarto, porém difícil é se imaginar como sendo o animal comido.

10) O direito de escolha do animal. Na natureza os animais vivem sua liberdade até que um predador os casse. Na vida entre os seres humanos nenhum animal é poupado. Os doentes são tratados para continuarem produzindo ou serão mortos para não darem prejuízo. Os saudáveis todos irão morrer, não há trégua, não há animal de corte libertado para viver sua vida solto. Se está vivo, será cercado, amarrado, preso. Não há “gado de rua”, não há “galinha de rua”. Estes seres automaticamente quando “de rua” serão dominados por um ser humano que irá utilizá-lo para alguma utilidade que lhe convier.

11) A passividade do animal foi conquistada através de contínuas inseminações artificiais. Quanto mais pacífico, mais recomendado para o cruzamento. Assim como aqueles que dão mais carne e que teriam problemas de saúde no futuro, como serão abatido antes destas doenças aparecerem, não são um problema. Animais domésticos como cachorros “salsicha” terão problema de coluna. Cães farejadores terão problemas respiratórios. E tudo que para nós é útil e “bonitinho” será um dia um problema para o animal. Tudo devidamente escolhido pelo ser humano.

Há muitos outros pontos para se abordar, porém este ponto de partida é fundamental para todos.

Por Roberto de Andrade (Planeta Ideal Floripa)

(¹) Cinco Liberdades. Fonte: http://www.wspabrasil.org/whoarewe/Nossas-conviccoes.aspx
(²) A temperatura do ambiente prejudica os ovos? Sim, em lugares muito frio (abaixo de 4ºC) os embriões podem morrer e em lugares muito quente acima de 34ºC o embrião começará a desenvolver-se. Fonte: http://guia.mercadolivre.com.br/21-maiores-duvidas-sobre-incubacao-artificial-5505-VGP
(³) Abate “Humanitário”. Fonte: http://www.wspabrasil.org/trabalhoWSPA/animaisproducao/abatehumanitario/ As Cinco Liberdades foram originalmente desenvolvidas pelo Conselho do Bem-Estar de Animais de Produção do Reino Unido (Farm Animal Welfare Council – FAWC). Fonte: http://www.abrigodosbichos.com.br/forum/Topico746.htm

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