Os Veganistas

Por Leide Fuzetto Gameiro

Tenho a impressao que o número de pessoas que nao comem animais está crescendo. E também que a maioria é motivada por questoes éticas. Nunca se falou tanto na mídia sobre isso e com questoes tao em pauta, como o meio ambiente e vida saudável, o futuro dos animais parece promissor! Parece, mas nao acho de verdade que seja, infelizmente. E, na minha visao, a situaçao demorará muito para melhorar por conta de nossa incoerência, que nos faz marcar pontos para o adversário: o especismo!

A maioria das pessoas que leio e ouço falar em nome dos animais sao, na medida de sua ignorância, especistas! E porque? Maldade? ( Nao sejamos maniqueístas, senao fica muito fácil). Acho que por falta de informaçao e de vontade de buscá-la. Até semânticamente usamos nossas palavras contra a causa que supostamente defendemos. As palavras sao símbolos que carregam mais do que simples definiçoes, elas têm uma carga de intençoes subjetivas, raramente perceptíveis. Entao, ao usar o cunho VEGETARIANO para definir uma pessoa que come ovos e bebe leite de animais, está-se afirmando que essa pessoa colabora para o fim do holocausto animal, certo? Ao passar essa idéia para a frente estamos sendo especistas de forma irremediável, colaborando na verdade com o assentamento do especismo na cabeça das pessoas. Se alguém que se alimenta de partes de animais que nao seja carne, e com isso manda um número muito maior deles para o matadouro  e por isso recebe a definiçao de vegetariano, estamos deixando claro no imaginário coletivo que os animais podem esperar, nao merecem tanto esforço de nossa parte, e que matar bilhoes de bezerros, pintinhos e escravas leiteiras e poedeiras nao é tao grave perto de um  SER HUMANO abandonar assim de uma hora para outra um hábito de uma vida inteira.

Por outro lado, se chamarmos uma pessoa que usa leite e ovos (e etc) de protovegetariano, estamos deixando claro no imaginário coletivo que essa pessoa tem a intençao de, um dia, abolir o uso de animais de sua dieta. Ela recebe um status de promissor vegetariano, que ainda nao colabora com o fim do holocausto, mas pretende. Essa (simples) mudança de palavra faz muita diferença, pois  faz com que a pessoa nao se acomode em uma pseudo etapa (nao vejo como etapa, pois a pessoa que deixa a carne tende a aumentar o consumo dos outros pedaços de animais e agravando a exploraçao, entao, se sua mudança é para pior para os animais, nao é um etapa, é um contrasenso).

Outro erro muito comum é espalhar por aí que a compaixao é motivaçao imprescindível e primordial para a mudança de paradigma. Esse pensamento é especista. Ele dissemina a idéia implícita de que os animais nao tem direitos, mas que o ser humano, por ser infinitamente superior, pode ter a compaixao despertada e assim ter a benevolência de talvez pensar em parar de explorá- lo. Para o inferno com isso! Eu sinto compaixao, eu amo os animais, mas nao acho que mereçam ter direitos por que eu sou compadecida. Os animais têm direitos, ponto! Nao podemos continuar a passar a idéia de que é coisa de gente boazinha abolir a escravizaçao. É dever de todo ser humano, ame ele ou nao os animais.

Eu nao defendo o veganismo. Quem defende o veganismo é veganista (estou lançando esse novo termo para definir quem defende o veganismo pelo veganismo). Ser veganista é ser especista! É especista por que passa a maior parte do tempo defendendo o seu veganismo e nao os animais. Se indigna mais com críticas contra seu veganismo do que contra a escravizaçao. Vejo veganistas como pessoas que  buscam auto afirmaçao, pertencimento e status.

O veganista age sempre pelo preconceito. Pois suas críticas se dirigem ao outro que nao representa seu grupo. É fácil ver um monte deles muito bravos com uma madame que posa com casacos de pele, mas nao o vemos bravos porque o pai só usa sapato de couro. Querem ver o peao de rodeio e o toureiro mortos, mas nao querem ver a mae morta porque ela come um pedaço do mesmo animal que o peao tortura. Usam palavras depreciativas contra chineses porque matam caes e japoneses porque matam baleias, mas nao usa as mesmas palavras na mesa de bar contra os amigos de infância que paga para matar o frango que está frito na mesa. Criticam o que está longe socialmente. A madame rica, o peao de boiadeiro, o asiático…

Também tem o veganista que é da paz. Nao critica ninguém e nao gosta de ver  prédios sendo incendiados para salvar os animais confinados. Ser da paz pode significar ser abstemio. O indivíduo se dá o direito de nao estar de nenhum lado, só do seu próprio. Isso é ser especista. Ser contrário à morte é ser contrário à quem a impede? Ser vegano e ser contra açoes diretas deixa claro ao imaginário coletivo: se fossem bebês humanos eu acharia certo, mas animais nao humanos ainda nao tem direitos e ir contra as leis humanas para salvar meia dúzia de caes é errado.

Seguir as leis humanas quando elas ferem os direitos dos animais é ser especista! Coloca-se o humano acima dos animais, é óbvio!

Eu nao sou veganista. Nao defendo o veganismo. Nao me defendo através do veganismo. Defendo os animais. Ser vegana para mim é mera obrigaçao. Eu sou (contra minha natureza) anti-especista!

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