Eu Odeio Vegetais!

“Desde sempre odeio vegetais. Não gosto mesmo. Acho ruim, amargo, sem graça. Horrível! Sempre digo que comer vegetais me farão ficar verde e por isso só como ‘porcaria'”.

Essa era uma típica frase minha antes de me tornar vegano.

Ainda me lembro que alguns segundos antes de me tornar vegano olhei para mim mesmo e perguntei: “Você realmente vai fazer isso? Você sabe que odeia vegetais do fundo do coração e agora vai se tornar alguém que SÓ come vegetais?” E com um medo e uma dor no peito disse: SIM, pelos animais!

E meu começo foi esse. Enfrentar meu maior medo: OS VEGETAIS!

Falar que fazia bem para a saúde de nada me ofendia, tinha total orgulho de ser podre. Comer mal era minha alegria! Que delícia que era comer um monte de coisa gordurosa e não estar nem aí. Acima de tudo porque sempre fui magrelo. Então tinha o privilégio de manter a magreza e esbanjar em fast food. Claro que com a idade comecei a ganhar peso e já tinha um ‘panceps’ proeminente quase nada invejável que sempre me torturou. Mas fora isso o resto estava beleza.

Sabendo do meu trauma de vegetais eu percebi que ia precisar de um plano. Ir correndo comer uma beterraba, o símbolo do vegetal que menos gosto ia ser burrice. Então decidi começar pelos “menos ruins”. E então tentei um alface, um agrião que eu já gostava um pouco, espinafre… mas fugindo minha regra forcei a barra e comprei RÚCULA! Que eu odiava!

Fiz um pratão de muuuuuito arroz e muuuuuita batata porque eu era podre e nem me dava conta disso e comecei a comer aquelas coisas verdes alienígenas. De cara percebi que rúcula era ruim mesmo. Comi uma rúcula sozinha e um agrião que minha boca quase explodiu de ruindade. Mas continuei comento afinal eu decidi “enfrentar meus medos”! E percebi então que se misturasse com o arroz e a batata eu nem sentia o gosto direito dos vegetais e essa foi minha primeira técnica de alimentação alienigena: misture vegetais com algo gostoso!

Com essa técnica aprendi a comer quase tudo. Brócolis, rúcula, espinafre e todas essas coisas nojentas.

Certo dia recebi de presente um pacote de DAMASCO!!! Deus do céu, quem foi o louco que me daria um troço desses? Minha mãe! Óbvio. As mães adoram mostrar que te amam dando coisas que você odeia. Na verdade deve ser alguma psicopatologia de mãe, ela na verdade está brava com você, não sabe como dizer e tem peso na consciência de admitir que está “puta” com o próprio filho. Então ela dá um “presente” que seria uma coisa boa, porém o presente é sempre algo intragável, inaceitável e horripilante. Por exemplo: uma bíblia, uma toalha, um brinquedo de criança quando você já tem 30 anos. Enfim, no meu caso foi um pacote de DAMASCO! E ela toda feliz ainda disse: “agora que você mudou de alimentação eu sei que é isso que você gosta!” Claro que gosto! Longe de mim! Deviam dar damasco na ração do boi pra ver se ele fica com gosto de damasco e as pessoas param finalmente de comer animais!

Mas nesse caso guardei o damasco, vi a validade e era praticamente infinita. Um dia de bobeira pensei: não deve ser tão ruim, nem verde é. E abri o pacote e cheirei… apenas cheirei! Quase morri de desgosto! Definitivamente foi uma sacanagem aquilo! Mas como eu já tinha dito: decidi enfrentar meus medos e também é pelos animais!!

Mudei a estratégia e fiz uma pesquisa comigo mesmo! Pensei o seguinte: será que se eu comer algo que não gosto aos poucos, será que de tanto comer algo ruim ele vira gostoso? Talvez porque o corpo abandone a aversão ao gosto e ao cheiro e descubra que aquela coisa nojenta é nutritiva e então mude de ideia e mande sinais de “gostosura” para aquela coisa alaranjada? Resolvi testar!

Não misturei com nada, comi aquele troço esquisito, com gosto horrível forçando deliberadamente contra todos meus instintos aquela nháca estranha de morder. Era uma lesma fibrosa e azeda. Horripilante. Enfim, dentro da minha estratégia eu pensei, se comer tudo de uma vez eu morro em 5 minutos. Então muito tempo depois comi outra e me perguntei: será que vou gostar mais agora? Então comi! E eca, de novo, continuava ruim como sempre. Mas insisti na técnica e muito tempo depois fui repetindo e reavaliando minha própria opinião. Certa vez tinha terminado de comer chocolate e comi o damasco em seguida! Carambaaaaaa, aquilo multiplicou por 1000 vezes o horripilância damasqueza e definitivamente descobri que não se come algo ruim depois de comer algo gostoso!! Numa outra vez comi logo após escovar os dentes e estranhamente quase não senti o gosto e definitivamente juntei com a conclusão anterior: misturar as coisas muda o gosto! E continuei comendo entre longos espaços tomando o cuidado para não multiplicar o gosto ruim de novo. Isso já durava alguns dias… uns 5 pelo menos e comecei a notar que já não sentia tanto o gosto do damasco, foi se tornando natural. Nesse ponto o pacote estava pela metade! E nessa hora já estava comendo uns dois damascos seguidos. Continuei incessantemente! O progresso começou a me motivar. Dias depois estava comendo damasco alucinadamente e quando o pacote terminou senti saudades! Se vou comprar de novo? Realmente não sei. Comecei a gostar, confesso.

Mas acima de começar a gostar ou não, juntando todas as minhas experiências, percebo que antes eu era “monoalimentar”, tinha poucos ingredientes como base e em geral exageradamente gostosos: chocolate, salgadinhos, etc. Com meu lado vegetariano aflorado hoje percebo que gosto de verdade dos vegetais. Eles realmente não tem aquele sabor apelativo do queijo e da carne. Porém incrivelmente o hábito nos faz gostar de tudo que comemos! Paralelamente meu aprender a gostar de vegetais hoje me deixou enjoado das comidas “monoalimentares”. Antes eu comia sem problemas um pacote de bolacha e hoje sinto só de pensar em comer que há um excesso de poucos nutrientes!

Junto com toda essa mudança, também paralelamente, fui parando com alimentos industrializados e hoje tenho uma alimentação saudável, rica em todo tipo de nutriente e que eu AMO!! Os desafios transformaram meu próprio paladar!!

A nossa alimentação está intimamente ligada a sensações inconscientes. Alguns ingredientes creio que poderemos morrer sem gostar!! Por exemplo, ainda não enfrentei a “beterraba”!! Porém dizer que algo que eu não gosto hoje nunca irei gostar é preguiça!! Temos que tentar transformar nossos hábitos e dar uma chance para essa transformação. Não adianta falar “Eu tentei gostar e não consegui!”… tem que TENTAR MESMO!! Com vontade, como quem quer gostar. Se a pessoa desistir no primeiro probleminha, no primeiro damasco, vai colocar na cabeça que “não consegue” sendo que mal tentou, ou tentou com vontade de não tentar! Então a chave de tudo é “querer”! Eu definitivamente estava convicto que ia fazer qualquer coisa pelos animais e que minha decisão não tinha volta! Também sabia que deveria insistir e saber diferenciar “rejeição” de um alimento de “preguiça” de insistir! Ficando atento à essa diferença podemos insistir sem problemas que não vamos nos contradizer como seres humanos. Aquilo que realmente não gostamos, basta deixar de lado e procurar algo nutritivamente compatível como substituição. Não há necessidade de se “obrigar” a gostar.

E no fim de tudo, com essa mania de aprender a gostar, despertei dentro de mim uma vontade de experimentar tudo. E mais do que isso, com muita naturalidade meu paladar agora aceita cada vez mais alimentos novos. Ser vegano se tornou tão natural que hoje escuto do meu amigo, enquanto como um pratão de vegetais, dizer: “não sei como você gosta disso!”

Fica aqui meu depoimento, acima de tudo para as pessoas que como eu estava, estão com medo de enfrentar esse exército alienígena!

Até mais!

Roberto de Andrade (Planeta Ideal Floripa)

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3 responses to this post.

  1. Posted by Aline on 12/01/2012 at 2:09 AM

    Beto, adorei teu texto. As coisas acontecem exatamente assim. Crescemos sem sentir o gosto real dos alimentos, o que sentimos são somente temperos, sal, azeites e por aí vai. Hoje, depois de largar as ditas “porcarias” e industrializados, é que sei o real sabor de uma salada ou fruta, coisa que eu nunca esperei acontecer. E adoro. Alimento vivo é energia.

    Responder

    • Obrigadão Aline! Saiba que nossas conversas sobre alimentação viva me fizeram ver que eu já estava naturalmente indo para esse caminho sem perceber!! Tanto no sentido de ir atrás do alimento cru, como também no sentido de evitar o cozido! Enquanto vc falava que pude perceber que estava “sentindo” na prática o que vc tinha lido!! Obrigadão!! Beto

      Responder

  2. Posted by Izabel on 24/02/2012 at 6:37 PM

    Beto.
    Mãe é Mãe. Nunca desiste, sempre insisti, persiste…
    Aguarde… para a páscoa, ovo recheado de damascos.

    O texto está muito bom! Parabéns!

    Responder

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