Mata a Vaca e Salva o Gato

Há muitas formas de se interpretar a palavra animal. Para alguns animais são tudo que é não humano. Para outros restringe-se à cães e gatos. E se continuássemos essa pesquisa descobriríamos mais formas ainda de se definir o que é um animal. A coisa fica mais complexa ainda se tentarmos definir o que é a proteção aos animais. Então farei um breve comentário sobre algumas formas de pensar sobre a proteção animal e opiniões sobre os animais que na vida de vegano vamos sempre encontrar.

O carniceiro – A primeira noção de proteção animal é justamente a ausência dela. Alguém que não protege, que se vê em competição com os animais (não humanos), e portanto deve subordinar eles à sua força e vontade. Sendo assim, é uma pessoa que só não chuta um cachorro na rua para não gastar energia, mas que não teria problemas em fazer isso. Estas pessoas podem ser consideradas psicóticas por alguns, por não demonstrar empatia pelos outros, sádica ou alguma coisa deste gênero. A princípio há uma certa rejeição geral da sociedade para este tipo de posicionamento o que faz com que muitos dos carniceiros sejam “irrustidos”. Eu lembro um conhecido meu que certa vez viajando na estrada desviou de um cachorro para não atropelar. Dias depois ele confessou: “só não atropelei o cachorro porque a fulana estava no carro e ia ficar chateada”. Isto pode acontecer diariamente e esta pessoa de fato não se importa com animais não humanos, e pode ou não omitir sua opinião diante dos outros.

O criador competidor – Existe um tipo de criador de animais que se diz protetor dos animais, conhece sobre raças de cães, gatos, porém não se importa se uma raça campeã de competições seja doente por consequência de sua própria genética artificial. Ele pode lutar para que um remédio seja produzido para curar uma doença cardíaca de um cão campeão, mas jamais vai aceitar deixar de procriar o animal mesmo sabendo que os problemas genéticos, a doença cardíaca, são o segredo do sucesso do animal.

O cachorreiro/cachorrista/gatista – Esse creio ser a noção mais global que temos de proteção animal. Considera na sua conceitualização de animais gatos e cachorros, daria a vida por eles, porém compreende que outros animais devem ser bem tratados mas sem muitos exageros. Em função deles que temos muitos sites sobre gatos e cachorros, filmes, produtos, veterinários, etc. Ele é bem-estarista, porém com uma diferença: ele não se interessa em saber o que acontece com uma vaca, porco, etc. Se ele vir um filme falando que a vaca foi espancada vai ficar triste, mas não vai se mobilizar para ajudar nem nada do tipo. Esta forma de ver os animais tende a ser “fabricada” socialmente uma vez que nos esforçamos para mostrar que nossos vínculos devem ser pelo afeto, sendo assim, entre um cachorro que faz uma festa quando você chega, um gatinho que sobe no seu colo quando você está triste e uma vaca que a maioria nunca viu perto e quando vê tem medo, entre o medo e o carinho, o cãozinho e o gato ganham de longe em afeto e praticidade. O cachorreiro literalmente “mata a vaca e salva o gato”.

O teleologista – Este acredita que tudo tem uma razão, tem uma função de ser, e que os animais foram feitos para determinados fins. Neste sentido alguns vão dizer que a finalidade do cão é ser amigo e a da vaca de ser comida. Alguns vão afirmar que certos animais nasceram para servir de montaria e todo tipo de argumento que explique ou que argumente uma razão ou função dos animais na terra. Isso inclui muitas vezes dizer que nós temos a função de cuidar do planeta, ou que o planeta foi feito para nós e por isso tudo que há no meio ambiente são objetos para nosso uso, incluindo os animais.

O bem-estarista – Como o nome diz é a pessoa que preza pelo bem estar animal. Ela já ampliou a noção que animais são mais que cães e gatos e já entende que nas fazendas o abate precisa ser “humanitário”. Diria o bem estarista “Já que vamos comer uma vaca, vamos tratá-la com respeito”. Este é o senso atual de julgamento sobre como tratar os animais. Cuidar bem dos que vamos comer. O bem estarista argumenta, em geral, que a proteção aos animais deve ser em vista da produção e dos seres humanos e não do animal: cuidar do estresse da vaca ao ser abatida para não prejudicar a carne do consumidor, ou, oferecer um ambiente bem iluminado porque aumenta a taxa de reprodução de determinada espécie. O bem-estarista procura encontrar um meio-termo, um equilíbrio.  Justamente por buscar um suposto equilíbrio ele é amplamente defendido. Todos nós queremos estar em equilíbrio, nem magros, nem gordos… nem alto, nem baixo. Então se for possível matar um animal feliz, há o equilíbrio entre sofrimento e alegria. E isso acalma seu mal estar interior.

O espiritual/vegetariano – O espiritual busca um despertar interior para a conexão dos seres com o universo, com Deus ou algo superior. Este caminho é bem diverso, existem muitas práticas diferentes e regras diferentes. Eu me lembro de um conhecido espírita certa vez comentar que “porcos são animais que já tem uma consciência de si mesmo maior que muitos animais”, querendo explicar que os animais maiores não deveriam ser comidos. Nessa ótica, quanto mais o animal tem um “ego”, tem um “espírito”, então ele passa a subir num nível evolutivo e passa a ser visto de forma diferenciada. Outras religiões pregam a não violência e neste sentido praticam a paz em todos os níveis independentemente se são animais, plantas, etc. E neste sentido a regra é “devemos praticar a não violência até onde pudermos”. Ele então busca compreender mais e mais o sofrimento que causa aos outros e vai modificando suas ações em vista da paz.

O veterinarista – Esta seria uma visão das pessoas que usam a tecnologia atual para todo tipo de intervenção, seja no nível da saúde ou da estética animal, porém com razões humanas. O veterinarista pode em certa medida curar uma doença de um animal não humano sem se preocupar se aquela doença tem como causa o estilo de vida humano que impõe no animal sofrimento. O animal por vezes demonstra alegria mesmo em estado de dor e para os “olhos” dos homens isso não é um problema. Ele combinado com o criador/competidor formam um elo que por vezes trata como “símbolo” de uma raça sua principal doença. Porém esta associação pode estar com qualquer um de nós, uma vez que não somos informados que certos animais tem doenças típicas da raça por vaidade humana de querer ver um mascote bonitinho. Nisso perpetuamos o veterinarismo.

O Vegetariano – O vegetariano despertou que a morte dos animais é algo ruim e via de regra não come carne, principalmente a vermelha. Vegetarianos são difíceis de classificar porque certas informações sobre os animais só estão surgindo agora fazendo com que muitos antigos vegetarianos mudem a forma de agir no decorrer da vida. Porém, via de regra você pode ir à uma pizzaria e comer uma pizza vegetariana com queijo, ovos, e outros ingredientes de origem animal. E neste sentido, como a vaca e a galinha não são “mortos”, isso torna explicável e tolerável certas atitudes frente aos animais. Nem todo vegetariano come leite e ovos, o que faz da definição de vegetariano ser algo no estilo “pode ou não” comer ovos. Algumas pessoas vegetarianas comem peixes e se dizem vegetarianas.

O Vegano – O vegano é visto por uns como uma nova “moda”, ele é uma das versões mais atualizadas sobre defesa dos animais. Muitos antigos vegetarianos já praticavam o que hoje se chama veganismo, mas o que muda de fato no veganismo é a consolidação sem sub-itens ou sub-grupos que defendem de uma só vez que a vida do ser humano não deve explorar a vida dos animais não humanos em nenhum nível. Nem alimentação, nem vestimenta, nem em testes. O vegano surge ao mesmo tempo dos problemas de “aquecimento global”, de desigualdade social então ele inclui uma preocupação ecológica junto com a questão dos animais. A ideia de consolidar os animais como dignos de Direitos, assim como os homens, começa a surgir com bastante força. O vegano surge também num momento em que a ciência está bastante desenvolvida e começa a produzir em alta velocidade conhecimentos que demonstram com clareza a viabilidade de uma alimentação sem animais e isso tem sido um pilar fundamental para sua credibilidade social que hoje se vale primordialmente das pesquisas científicas.

O conectivista – Ele busca a conexão livre de todos os elementos da natureza. Animais soltos e sem domesticação, plantas livres de monoculturas, uma integração geral do ambiente sem poluição, ciência e seres vivos caminhando juntos. Ele entende que nós seres humanos colocamos nossos sentimentos como o medo de ficar só, carências e por conta disso tentamos “possuir” os animais não humanos os chamando de “nossos”, chamando a si mesmos de “donos” e inserindo os animais não humanos em situações humanas, domesticadas. Ele entende que um cachorro solto que segue um homem está conectado com o homem. A intervenção do homem na natureza deve saber “ouvir” a natureza, numa conversa mutua.

O assunto é longo, tem muita coisa mais para se dizer, mas de forma geral este pequeno texto apresenta alguns argumentos chave que encontramos por aí, assim como algumas consequências de certas atitudes.

Mostrar estas formas de ver o mundo, não tem no meu ponto de vista, dizer quem é melhor ou pior, nem fazer uma linha evolutiva, nem de fixar as pessoas no “eu sou isso, fulano é aquilo”.  Poder falar de várias formas de ver o mundo nos faz lembrar que não estamos a sós no planeta. Que há muita gente pensando muita coisa. Nos faz sair do nosso umbigo e ver que podemos melhorar em certos pontos, que podemos pensar coisas que nunca pensamos. O mundo vem desde o egito até hoje se afastando cada vez mais da dor e sofrimentos físicos, abolindo escravidão, exploração da mulher e crianças e se a lógica humana tiver um caminho linear, o veganismo é o futuro, algo que tem por fim uma ideal bastante conectivista ainda que na prática as coisas não aconteçam como estão no papel. O veganismo neste caminhar histórico tem o olhar para o sentimento humano, para uma decisão moral dura de ser tomada, uma vez que temos a faca a mão e o a vaca no chão. É uma situação tensa de escolha. Ter a liberdade para matar ou não um animal e decidir não matar demonstra um novo nível de maturidade humana. Se você matar um animal hoje para comer, não será preso, nem processado, acima de tudo porque os animais nem sabem o que é isso. Então é uma decisão interna de algo aparentemente inofensivo, mas que de inofensivo não tem nada.

Para terminar: o mundo já é vegano, a ficha começou a cair.

Go vegan!

Por Beto do Planeta Ideal

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