Cobaia o caramba! Meu nome é Topolina!

Às vezes perdemos a noção de como uma atitude nossa pode influenciar as atitudes dos outros. E essa influência às vezes pode ser em alguém milhares de anos depois. As pessoas falam de Jesus até hoje. Mas podem ser milhares ou bilhares. Hoje falamos de dinossauros, da origem do universo.

Pois bem, hoje tenho aqui em casa uma gaiolinha com uma camundonguinha de 10 centímetros. A raça é conhecida como Minie Mouse, ou Topolino. Ela está sozinha apesar de ter vivido boa parte da vida com a mamãe, o papai e as irmãs.

Mas onde tudo isso começou? Ainda me lembro na faculdade quando entrei todo empolgado. E numa das primeiras matérias trabalhamos com “cobaias”. Cobaias para nós até hoje tem um significado negativo. Se você pega alguém para testar uma ideia maluca nova a pessoa logo diz: “Está me usando como cobaia??”. Não sei a origem do termo cobaia, mas para nós brasileiros o sentido popular de cobaia é ser usado como rato de laboratório para pesquisa. Enfim, eu estudava psicologia e tínhamos uma matéria que adestrávamos ratos e aprendíamos sobre comportamento animal na prática. Naquela época eu não era vegano, nem era engajado em nada relacionado a defesa dos animais. Achei tudo “normal” afinal éramos cientistas fazendo pesquisas numa universidade. O que estava acontecendo ali tinha passado por uma equipe de cientistas que haviam considerado necessário tudo aquilo e então não havia problemas.

Ok. O procedimento para o adestramento era deixar as cobaias em “privação de água” por 24 horas (o termo científico para “sede pra kct) porque iríamos utilizar como motivação para o adestramento a sede do animal. Que eu me lembro, na minha cabeça até então, apenas eu tentanva imaginar se 24 horas para aquela cobaia, se ela iria morrer ou ficar mal por isso. Este questionamento era uma faísca do meu mal estar. Como tudo era considerado normal, alguma coisa me dizia que o animal estava sofrendo apesar de eu, naquela época, não me importar tanto. O semestre passou, a pesquisa terminou, algumas pessoas pediram para levar as cobaias para casa o que foi aceito de boa vontade assim como quem não quis levar segundo o que se dizia é que elas seriam comida para as cobras do “butantã” (o instituto especializado em ofídeos).

Para a maioria dos alunos a história terminou aí. Para outros ela se estendeu em matérias optativas e outros talvez até hoje trabalhem com animais.

Após me formar decidi abandonar a carreira acadêmica, porém fiquei com a vontade de continuar trabalhos com cobaias. Anos depois de me formar enfim consegui um local, algum dinheiro e comprei algumas cobaias que decidi fazer algo experimental em casa. Pretendia replicar alguns experimentos e depois pensaria em algo mais interessante. Claro que aqui eles teriam uma vida melhor. Nada de gaiolas apertadas para ratos gigantes. Comprei uma gaiola “grande” para ratos pelos menos 10 vezes menores. A ideia era tratar como mascote e ao mesmo tempo fazer algum tipo de pesquisa. Por mim, decidi que não iria usar de privação de água por 24 horas por considerar desnecessário. Enfim, seria uma pesquisa “humanitária”. Estes Topolinos que comprei tinham vida média de 1 ano então julguei um animalzinho bacana, que não iria me dar trabalho.

Comprei um casalzinho. Eles tiveram 3 filhotinhos em 1 mês. Percebendo que se todo mês tivesse uma ninhada, separei logo machos de fêmeas.  Essa decisão de comprar animais que não darão trabalho e separar machos de fêmeas é um dos primeiros pontos da intervenção humana: o animal é visto como prático e útil para nós e automaticamente vamos transformando a vida destes animais em vidas para nós ao invés de vidas para eles. Os ratinhos queriam viver juntos, mas a superpopulação era um problema para MIM. Assim como os animais serem pequenos era um problema MEU de espaço, não deles. Porém, continuando, a pesquisa que eu queria fazer nunca fiz. Apenas pude conviver com estes animaizinhos tão inteligentes e tão pequeninos. Como era de se imaginar, passado um ano e meio eles foram ficando velhinhos e aos poucos foram morrendo.

Hoje estou aqui no dia da morte da penúltima ratinha. Isso significa que só restou a filhotinha mais nova. A razão que me fez escrever tudo isso vem agora. Porque como era de se esperar, alguma hora estas ratinhas iam morrer por estarem velhinhas já. A gaiola tem dois andares porque quando os machos morreram, juntei ambas. Nisso as ratinhas ficavam sempre no andar debaixo perambulando, comendo, bebendo e brincando na rodinha e em todo canto.

Porém notei que não via as duas juntas e imaginei que talvez uma delas tivesse morrido. Para não mexer na gaiola, esperei o dia observando se ela aparecia. Porém os animais são espertos e eles mudam suas ações, eles agem diferente. Não sei o que acontece, mas a falta de alguém ou a mudança muda a vida até de um ratinho. Como eu disse, elas sempre ficavam embaixo. E foi justamente isso que me fez ter certeza que uma delas tinha morrido. Hoje a última ratinha estava andando lá em cima. Alguns vão dizer que era normal, outros que ela estava procurando comida, o que eu sei é que aquela ratinha, no seu jeitinho de ratinha, estava procurando sua amiguinha.

Nada disso é normal. Comprar animais, pensar no tempo de vida deles para saber se vão dar trabalho, trancafiar num quadradinho que passarão a vida toda, decidir se bebem água ou não, se comem e o que comem! Isso não é normal! Eles não são nossos! Isso é uma doença mental que atingiu grau de normalidade! Os psicólogos todos sabem disso e ficam criando eufemismos e “entortando” os conceitos de doenças para conseguir adequar as tristes realidades sociais psicóticas como aceitáveis.

Não deixe esse clima de normalidade se perpetuar, não deixe que falemos de cobaias daqui dois mil anos!

Go vegan! E chega de gaiolas!

É isso

Beto do Planeta Ideal

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One response to this post.

  1. Posted by Daniel on 10/10/2012 at 12:45 AM

    Fiquei impressionado com seu depoimento.
    Eu crio 3 topolinos em casa tem pouco mais de 1 mês, e ja tenho o maior amor pelos bichinhos, ja me entristesse o fato de saber que eles vivem tão pouco, mais ainda de saber que essas criaturinhas tão dóceis e divertidas são usadas de forma tão covarde pelos seres humanos.
    O pior é saber que isso é interpretado com maior naturalidade do mundo pela maior parte das pessoas.
    Sou totalmente contra os criadores que enjaulam seus bichinhos em gaiolas minusculas, e acham que seu pet não precisa de carinho, de amor, de compania.
    Acima de tudo eles são seres vivos, e merecem respeito.
    Parabens pelo texto, e tambem pela iniciativa.

    Responder

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