Animais de estimação e os Veganos

Como afinal fica a questão dos animais de estimação e os veganos? O que acontece quando a gente começa a viver e interagir com eles no dia-a-dia?

Para começar este assunto já logo aviso que o tema é difícil. Que não há consenso nas questões que vou dizer. E que isso vai trazer muita revolta de todo lado.

Afinal, o que falar sobre os cães e gatos? Cavalos? Peixes? Estes animais que estão já envolvidos no nosso cotidiano.

Quando se pensa em libertação animal, ou seja, devolver a liberdade que eles têm por natureza, fica difícil acreditar que continuaremos tendo estes animais dentro de casa. Alias, difícil é pouco. Impossível. Porque?

dog-eating-carrots

Porque mesmo os animais mais livres, como gatos, que não tem coleiras nem nada, via de regra estarão sempre comendo rações com ingredientes de origem animal ou suplementando ingredientes, etc. Mas aí fica a grande pergunta. E se a gente conseguir resolver o problema da alimentação? E se conseguirmos fazer com que a alimentação geral destes animais seja vegana?

Aí então começa a parte mais complexa do pensamento.

Primeiro de tudo, as razões pelas quais se busca ter um animal nem sempre são as mais nobres. Alguns exemplos:

  • Ajudar o filho a ter responsabilidade e arrumar o quarto, melhorar as notas, largar as drogas,etc
  • Suprir carências emocionais (namoro, amigos,etc)
  • Compensar traumas pessoais com humanos
  • Cães de guardas para dar mais segurança à casa
  • Práticas esportivas/lazer (cavalos, touro)
  • Etc

Algumas questões para pensar envolvidas nestes pontos citados acima:

Presumir que o animal está feliz: Alguns animais não demonstram quando algo de ruim está acontecendo com eles. Os cães são campeões nisso. Eles só demonstram que há algo de errado quando o limite já está mais que estourado. Isso quer dizer que se ele fica o dia todo em casa sozinho sem ninguém, certamente não vai demonstrar. Isso faz parecer que não há problemas em trancar animais em casas, jaulas e coleiras.

No geral os animais tem uma vida com grandes espaços. Pássaros voam pelo céu e não em alguns centímetros de uma gaiola ou metros de um viveiro. Peixes a mesma coisa. Vivem em lagos ou oceanos. Cães também vivem em grandes espaços. A ideia de guardá-los em casa é muito interessante, mas temos antes de mais nada que pensar o que isso representa para nós. Como seria para nós estar no lugar deles. Em geral o dono do animal acredita que seu animal tem a vida que ele queria ter. Comida, casa e tudo de graça. Mas este é nosso olhar humano. Nós achamos que ter tudo isso nos fará feliz. Mas nós humanos sabemos que isso não acontece. Não é essa a fórmula da felicidade.

Chamar o animal de “seu”: O animal em casa tem sempre um “dono”. A pessoa olha para o animal como se fosse “dele”. Assim como não somos propriedade privada dos outros, essa noção de “ter” a vida deles é bastante generalizada. Estamos aqui “com” eles. Compartilhar nossa vida junto com eles pode ser bastante gratificante. Em geral ficamos surpresos quando um animal age junto com a gente quando nem sequer dizemos uma palavra:

O animal quando é seu amigo estará sempre com você. Porque esse medo de dar liberdade? Porque o medo de perder esses nossos companheiros do planeta? Eles não vão fugir de nós. Eles estão conosco e quando se forma um vínculo de um ser humano com qualquer outro ser, ele estará além dos muros e gaiolas. E será mais valioso justamente por estar em liberdade.

O animal solto nas ruas sofre maus tratos. E em geral é isso que as pessoas dizem para explicar porque adotá-los. E realmente esta é uma razão verdadeira. Mas na maior parte das vezes esta razão está irrustindo alguma das razões que citei acima. A pessoa está carente e diz: vou adotar porque os animais sofrem nas ruas. Usam sempre este problema como pretexto e não como causa. Ou somam: já que estou carente e quero ajudar a reduzir os maus tratos, vou adotar. A carência aparentemente está pareada com a vontade de ajudar. Mas a carência de longe é maior em nós humanos. O ser humano carente pensa de maneira fragilizada. E no final a ideia de que caso o animal não se adapte adoto outro deixa a questão da “troca” como base. Uma relação de um ser humano com um ser objeto que pode ser trocado.

O paradoxo dos animais em casa: trazer os animais para casa os protege, mas cria um paradoxo. Eles se tornam dependentes. Eles procriam absurdamente mais rápido do que nós e isso leva à castração, etc. As pessoas veem aquele animal na casa dos outros e ficam com vontade de “ter um também”. E isso gera um problema a longo prazo de superpopulação, de política de castração, de uma série de consequências que prometem resolver, mas que no fundo não resolvem. Ficam enxugando gelo e enchendo o coração das pessoas de orgulho por estarem “ajudando”.

É a falsa ajuda. A “falsa ajuda” para ficar mais claro é quando você envolve o outro num contexto que ele não vai conseguir sair. E isso pode acontecer em níveis muito sutis em que acreditamos “ajudar” e no fundo atrapalhamos. Algumas mães às vezes tem problemas com filhos excessivamente agressivos. E em alguns casos quando se vai investigar a causa, pode acontecer que a mãe dá aquela atenção para a criança justo quando ela está “causando”. E esquece dele nos outros momentos. Na forma de ver dela, ela está sendo prestativa. Ela se sente educando sempre que repreende a criança quando ela faz algo de errado. Sem perceber que ela mesma está alimentando uma situação de conflito. Que a atenção dela nas horas problemáticas está aumentando o problema.

E essa falsa ajuda está acontecendo em larga escala no planeta. Ao invés de apenas ajudar os animais que estão sofrendo maus tratos por humanos, está criando uma situação da cultura de convívio de humanos/animais. E esta cultura se dá toda vez que uma pessoa pensa “eu quero ter um animal” ou algo assim. Ou que usa alguma razão como pretexto para esconder um desejo desse. Nós já sabemos que o ser humano age pelos motivos mais vis. E que oculta até de si mesmo suas reais intenções. E isso acontece bastante nos defensores da “causa animal”, dos protetores.

Nós precisamos dar a eles, estes seres não humanos, um lugar na mundo na mesma medida que queremos para nós. Não queremos ninguém nos castrando, cercando nossa vida, nos possuindo. E isso acontece hoje. Temos capacidade para pensar e mudar isso. Temos inteligência para propor soluções cada vez mais adequadas para os problemas que citei acima. Um animal domesticado pode voltar para a natureza e continuar sendo nosso amigos. A história do leão que era domesticado que foi solto nos faz ter a certeza disso. Ele reconhece o amigo humano mesmo depois de livre.

E essa é a mensagem que quero deixar. Retirar a idéia que pegar animais de rua é “sempre” uma ajuda. Repensar a nossa possessividade, nosso desejo de ter eles para nós. Trazer de volta a relação que existe naturalmente entre seres de qualquer espécie. Nós vivemos com eles. Eles vivem em harmonia com outras espécies. Há todo tipo de relação entre seres vivos e podemos ser menos egoístas e mais generosos na hora de oferecer a liberdade que eles merecem!

Existe uma solução para tudo isso que não se resume a “eles lá, nós aqui”. Podemos integrar os seres. Mas esta solução vai exigir boas horas procurando saídas, encontrando formas de praticar estas saídas e muitas horas mais corrigindo os problemas que surgirão das soluções que encontramos!!

É isso

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5 responses to this post.

  1. […] dos posts mais interessantes que li até agora diz o seguinte: “O animal quando é seu amigo estará sempre com você. Porque esse medo de dar liberdade? Por…” .  Depois de pesquisar um pouco para criar uma imagem do que me incomodava, o que não é […]

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  2. concordo plenamente.. obrigada pelo texto!

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  3. Posted by tos on 09/12/2015 at 2:50 AM

    O texto é ótimo.

    “O paradoxo dos animais em casa: trazer os animais para casa os protege, mas cria um paradoxo. Eles se tornam dependentes.”

    Mas não é preciso trazê-los para casa, eles são dependentes, seja em casa, nas ruas, sítios, fazendas, laboratórios…onde quer que esteja a espécie que o homem selecionou e reproduziu de acordo com suas necessidades(domesticação).

    Então infelizmente, existe essa dependência. E mais infelizmente ainda, o único modo de evitar que mais e mais animais dependentes existam é? Castrando. E coisa triste, porém… nas cidades não há possibilidades para eles exercerem seu comportamento natural sem serem atropelados por carros, envenenados ou maltratados por seres humanos.
    E sim, hoje é basicamente a única “liberdade” que posso oferecer ao gato que um dia olhou nos meus olhos e claramente me pediu ajuda para não morrer….ele tem o apto todo pra ele. Se ele é feliz? Não sei… Mas parece menos triste do que quando estava numa caixa de papelão no meio fio, sendo quase atropelado por ônibus numa parada. ^_^

    Somos responsáveis pelos animais domesticados que estão vivos, e não há lugar para eles nem na natureza e nem soltos nas ruas das cidades, então resta usar o bom senso de respeita-los e dividirmos nosso lar com eles. =*

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  4. Posted by pedro on 30/08/2016 at 5:43 AM

    eu tenho 14 anos, a algum tempo eu sentia vontade de ser vegetariano, faz dois meses que me tornei vegetariano, e a uma semana resolvi adotar o veganismo, e desde sempre eu tive muitos animais, exceto caes e gatos, tenho um passarinho, uma tartaruga, um rato, uma cabra, um boi e uma vaca, e um casal de perus, e eu fiquei na duvida se no veganismo podia ter animais de estimaçao, meus animais nao ficam presos, so o ratinho que eu coloco na gaiola dele quando eu saio de casa, eu nunca tive caes e gatos por que eu nunca consegui entender eles, ja esses animais que eu tenho eu consigo entender e meio que comunicar com eles, por mais que pareça loucura.

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    • Boa parte dos animais que você tem, são explorados para consumo, pelo que você conta considero que você tem um mini Santuário na sua casa, mesmo que não seja o ideal, é melhor do que ele estarem presos, maltratados ou serem criados para serem mortos

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